ENTRE A SIMPLICIDADE DA JORNADA LITERÁRIA E O ESPETÁCULO DO CINEMA
Publicada em 1937, a obra “O Hobbit”, de J. R. R. Tolkien, conquistou gerações com sua narrativa envolvente sobre a aventura inesperada de Bilbo Bolseiro, um hobbit pacato que se vê envolvido em uma jornada épica ao lado de treze anões e do mago Gandalf. Décadas depois, entre 2012 e 2014, o diretor Peter Jackson levou essa história às telas em uma trilogia cinematográfica, expandindo o universo de Tolkien de forma grandiosa. No entanto, embora o cinema tenha oferecido um espetáculo visual impressionante, o livro e os filmes acabam transmitindo experiências bastante diferentes.
No livro, Tolkien adota um tom leve, quase infantil, com descrições poéticas e humoradas, refletindo o caráter de uma fábula moral. O autor valoriza o crescimento pessoal de Bilbo, mostrando como o medo se transforma em coragem e como a esperteza e o bom senso podem superar a força bruta. A narrativa é relativamente curta e linear, guiada pela ideia de que até os mais simples podem ser heróis. 
Já nos filmes, Peter Jackson optou por expandir a história para se conectar à trilogia de O Senhor dos Anéis. Elementos ausentes do livro, como o retorno de personagens conhecidos (Legolas e Sauron), foram incluídos para criar um tom mais épico e sombrio. A trilogia cinematográfica investe em grandes batalhas, efeitos especiais e subtramas românticas, o que transforma uma aventura íntima em uma superprodução de ação e fantasia. Embora visualmente deslumbrante, essa ampliação fez com que parte da simplicidade e do encanto do original se perdessem.
Enquanto Tolkien prioriza o ritmo da narrativa e a força simbólica da jornada, Jackson enfatiza o espetáculo e a grandiosidade visual. O primeiro convida à imaginação e à reflexão; o segundo, à emoção e ao entretenimento. Ambos, no entanto, complementam-se: o livro oferece o coração da história, e os filmes, sua forma mais expansiva e visualmente rica.
Em síntese, O Hobbit é um exemplo claro de como literatura e cinema dialogam sem se anularem. A obra de Tolkien continua sendo uma leitura fundamental sobre coragem e autoconhecimento, enquanto os filmes de Jackson, com todos os seus excessos, reavivam a magia da Terra Média para novas gerações. Cada versão tem seu mérito — uma pela delicadeza, a outra pela grandiosidade e, juntas, mantêm viva a chama da fantasia que há quase um século continua encantando o público.