O CAMINHO PARA A AUTOESTIMA
Desde a infância, quando a criança começa a socialização com a família, depois na escolinha, começa-se a criar pensamento crítico e um olhar sobre si. Ao sair dessa fase, começam os desafios para se conquistar uma boa saúde mental. A adolescência, com suas descobertas e turbulências, é um palco onde a autoestima é constantemente testada: comparação, busca por aceitação, problemas de autoimagem, expectativas irreais, entre vários outros dilemas. Todas essas batalhas internas que começam na adolescência, muitas vezes, não acabam na vida adulta, pelo contrário, ao se ver cheio de responsabilidades e deveres, inicia-se uma nova crise existencial. Tais desafios, quando não são lidados de forma saudável e empática, poderá ocorrer a perda da autoestima, criando um universo de adultos inseguros e, para essas pessoas, lanço uma pergunta para se fazer e refletir: “Por que você não se ama?”
O QUE É AUTOESTIMA?
A autoestima é definida como a qualidade de quem se valoriza, contenta-se com seu modo de ser e demonstra confiança em seus atos e julgamentos. É algo fundamental, uma vez que dita a forma como nos vemos e, consequentemente, auxilia no processo de tomada de decisões e como lidamos com situações e com as pessoas ao nosso redor. Fundamentada em 4 pilares: o autoconceito: a maneira que pensa sobre si, a sua interpretação da própria personalidade; a autoimagem: a opinião sobre a própria aparência física; o auto reforço: a forma como se recompensa, se elogia; e, por fim, a autoeficácia: a crença em sua capacidade de realizar tarefas para se alcançar suas metas – a autoestima vai se moldando.
O principal empecilho para se ter e manter uma alta autoestima é a própria mente e as mentiras criadas por ela sobre si, e, como veremos adiante, essa auto sabotagem é, na maioria das vezes, fruto de alguma insegurança externa, seja no ambiente familiar, no ambiente escolar ou seja como um produto de uma sociedade doente.
- A INFÂNCIA
A infância é o período de desenvolvimento do ser humano, que vai do nascimento ao início da puberdade. É nessa fase que o ser humano se molda, que é inserido na sociedade. Muitas das nossas ações, pensamentos e confusões internas têm suas raízes na infância.
“O indivíduo é produto do seu meio“, essa frase, associada ao sociólogo Jean-Jacques Rousseau, sugere que a nossa formação está ligada ao ambiente em que estamos inseridos, ou seja, “o ser humano nasce bom, mas é corrompido pela sociedade e pelo seu ambiente social”. É importante destacar que já nascemos com uma autoestima inata, pura, que é moldada – ou abalada – de acordo com nossa interação com o mundo.
O primeiro contato da criança com a sociedade é por meio da família, ou alguém que reconhece como uma figura familiar e é nesse ambiente que nos formamos, espelhando-nos nas ações que vemos em casa. Um exemplo é quando a criança ouve a mãe xingar ao bater o pé em um móvel e reproduzirá o que ouviu, principalmente, quando faz a mesma ação que a mãe fez. A criança é um fruto de seu meio familiar.
De acordo com estudos, entre os 3 e 4 anos, é quando o menor começa a se enxergar, criar autonomia e identidade. Nesse período de desenvolvimento, a interação familiar é essencial, uma vez que é nesse começo que a educação da criança é formada e o modo como os responsáveis lidam com ela, a partir daí, interferirá diretamente na sua autoestima.
Frases como “de novo aprontando“, “nunca faz nada direito“, “fica quieto“, “está bem gordinho“, entre outras, são comuns de serem ouvidas na infância, mas são extremamente prejudiciais, atrapalhando o processo de criação de uma autoimagem positiva do indivíduo sobre si mesmo e de várias formas. Caso uma criança vá pegar água para sua mãe, mas derruba sem querer o copo no chão, assim quebrando-o e caindo todo o líquido no chão, se ouvir a mãe gritando com ele: “você não faz nada certo, vai para seu quarto para eu limpar sua bagunça!“, o garoto pode passar a duvidar de sua capacidade de organizar e executar bem as ações, desde as mais simples às mais complexas, interferindo negativamente em sua autonomia.
No livro autobiográfico: “Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcelos, acompanhamos o autor com seus 6 anos. O garoto, apelidado de Zezé, vem de uma família pobre, com 5 irmãos, é uma criança arteira, que prega peças nos vizinhos e familiares para chamar atenção. O pobre menino é castigado com frequência, principalmente com agressões físicas, por suas brincadeiras, além de ser constantemente chamado de “demônio“, “filho do cão“, entre outras terríveis ofensas. Ao longo da história, Zezé, de tanto ouvir esses xingamentos, começa a acreditar no que dizem – faz mais bagunça, pois ele era o que era: algo ruim. Fica muito evidente a falta de apoio familiar, sendo a família um agravante da situação do menino e vemos como isso enfraquece a visão que Zezé tinha sobre si mesmo.
A criança ao entrar na escola, já vem com uma base familiar definida, podendo ser ruim ou boa de diversas formas que moldam como o indivíduo se adapta e interage com esse novo ambiente. Uma criança criada por pais muito rigorosos tende a ser tímida, com dificuldade para se adaptar e se comunicar; já uma que tem pais agressivos, tende a ser agressiva, reproduzindo a cena em casa, ou medrosa, influenciada pelo pânico que se acostumou a sentir.
“O papel da escola vai além de apenas ensinar o aluno, é um espaço de socialização e amadurecimento emocional. Lá se aprende a lidar com regras e opiniões diferentes. O trabalho escolar é paralelo, anda junto, com a família, sempre para ajudar a criança. A autoestima na sala de aula é construída com o tempo, deve-se ter paciência e consistência.”, disse a psicopedagoga e professora da rede pública de São Paulo, Eliana Nogueira. Eliana alerta que quando o menor está em um ambiente de aprendizado negativo, isso afeta seu emocional. A falta de incentivo e acolhimento de colegas e professores, a pressão para ter sucesso, falta de reconhecimento e comparação são pontos negativos para a autoestima, mas infelizmente comuns nos ambientes escolares.
ONDE VOCÊ SERÁ QUE VOCÊ SE PERDEU DE SI?
- OS DESAFIOS DA VIDA
A adolescência é o período de transição entre deixar de ser criança e tornar-se adulto, é marcada pelas intensas mudanças físicas e psicológicas que acontecem. Se a infância plantou as sementes da autocrítica, a adolescência é a fase em que elas florescem de forma mais intensa e dolorosa. Uma das características dessa fase é a busca pela identidade e pertencimento, além da necessidade de definição pessoal dentro de um grupo social.
A puberdade traz diversas transformações no jovem, principalmente corporais e hormonais, afetando a aparência e o humor. O corpo se transforma rápido, a voz altera, e tudo isso acontece, enquanto tentam se encaixar em um padrão para ser aceito. Já as alterações no humor deixam os adolescentes sensíveis a julgamentos.
A insegurança em torno da pergunta “o que vão pensar de mim?” e a necessidade de aceitação – de pertencimento a uma grupo – faz com que muitos jovens queiram ser populares, ter muitos amigos, ter uma beleza padronizada, apenas para se sentir incluídos em algo. No entanto, essas “caixas” onde se colocam para se sentirem bem podem afetar a forma como se enxergam, obrigando-os a serem algo que não são. Há também o outro lado dos jovens que não conseguem se encaixar nesses padrões, buscando a autenticidade e muitos deles acabam, infelizmente, sendo excluídos e se tornam vítimas de bullying.
A pressão escolar e familiar também costuma ser gigante nessa fase. Os adolescentes são pressionados para escolherem seu futuro, estudar para vestibular e, constantemente, sofrem com a expectativa abusiva de sucesso financeiro e profissional. Também como as comparações familiares – são comparados com os filhos da vizinha – com os super inteligentes, assim diminuindo seus próprios filhos. Há ainda uma espécie de comparação interna: “o cabelo dela é tão bonito e o meu todo oleoso, eu sou tão feia comparada a ela“. Todas essas inseguranças podem desencadear problemas muito graves, como depressão, crise de ansiedade e, muitas vezes, distúrbios alimentares e distorções da própria imagem.
AS REDES SOCIAIS

Como dito anteriormente, problemas de autoimagem podem estar ligados ao ambiente familiar, social ou escolar do indivíduo – se alguém cresce em um lar onde é chamado de inútil, acabará se vendo como um fracassado e isso poderá causar problemas psicológicos e distúrbios – mas não é preciso ter esses empecilhos para ter problemas com autoestima. O filósofo alemão do século XX, Martin Heidegger, apontou que existir em uma sociedade doente é o bastante para sua voz interna ser hostil. Mesmo um século depois, sua teoria se encaixa no contexto atual, principalmente analisando o consumo desenfreado das redes sociais. Uma das consequências da globalização e utilização da Internet está na aceleração do cotidiano: as redes são parte do nosso dia a dia, ficamos sempre de olho nas novidades, nas notícias, nas fofocas e as informações chegam ao mundo todo em segundos. Somos diariamente bombardeados de informações e sempre queremos mais, assim perdemos o presente. E um tempo fundamental para se cuidar é substituído por tempo nas telas.
Nas redes sociais sempre há diversas pessoas melhores que você, mais bem sucedidas, mais ricas, prodígios e, ao consumir esse conteúdo como verdade, sentimo-nos uns miseráveis e, quanto mais deprimidos ficamos, mais vamos consumir. Esse ciclo de autodestruição acaba com a nossa autoimagem, causando danos sérios à nossa saúde mental, além de sobrecarregar a mente.
AUTOESTIMA
Em síntese, a autoestima é essencial para alguém se sentir bem consigo, mas é abalada pelas nossas relações familiares, sociais, escolares e pela aceleração e comparação presente nas redes.
Todos esses desafios que surgem afetam nosso psicológico, muitas vezes, sem perceber, digerimos ofensas, comentários desagradáveis ou comparações, ficando marcadas no nosso subconsciente. Esse caos interno, muitas vezes, acontece, porque confundimos histórias com fatos, por exemplo: “eu moro em Americana e gosto de ler” são fatos sobre mim, mas “eu não faço nada direito, não sirvo pra nada” é história, irrealidade que minha cabeça criou em decorrência de algo exterior, para sabotar a minha mente.
Mas como parar de pensar mal de si mesmo?
A verdade é que faz parte do ser humano ter suas inseguranças e suas imperfeições, não tem como se sentir bem consigo o tempo todo, mas é possível ter uma autoestima saudável, assim conseguindo conviver bem com o que sente.
“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”.
A frase acima é associada ao filósofo Sócrates e define sua ideia de autoconhecimento. Para ele, alcançaríamos o desenvolvimento pessoal e a autoestima por meio do questionamento e conhecimento de si. O questionamento sobre tudo e todos é essencial para discernir a realidade das histórias que criamos. Caso esteja em um mau momento, cheio de pensamentos ruins a seu respeito, procure se perguntar e ir a fundo para encontrar uma resposta racional para o problema, por exemplo: “Todos me odeiam, eu estraguei tudo”, agora, usando o lado racional, questione-se: “Mas por que todos me odeiam? Como você afirma isso, tem provas? Realmente o que você fez é algo imperdoável? E se talvez for hora de uma nova perspectiva, até mesmo de novos amigos, um novo relacionamento?
Já no autoconhecimento é mais complexo, pois o ser humano está em constante mudança, nunca é o mesmo, então, principalmente em um mundo tão acelerado, é fundamental tirar um tempo para você. Parar, observar o presente, as coisas ao redor, fazer atividades voltadas para o seu lazer, podem ser atitudes significativas para o equilíbrio. Passar um tempo pensando racionalmente, perguntando-se coisas fundamentais sobre o seu “EU” do momento: “O que me faz bem, qual a minha cor favorita? Em que eu sou bom? Quais são as minhas qualidades e os meus defeitos?”
E não só raciocinar sobre sua mente, mas também sobre seu físico: “O que eu gosto em mim? O que eu não gosto em mim? Eu posso mudar isso de que não gosto, ou não? Por que eu não gosto?” Ao final dessa jornada para dentro de si, vai estar mais equilibrado consigo.
É de extrema importância o acompanhamento psicológico com um profissional que lhe auxilie nesse caminho. A partir do momento em que estamos bem conosco, que nos aceitamos – as qualidades e defeitos – aprendemos a nos bastar. A opinião dos outros deixa de atingir como atingia antes. E com isso alcançaremos uma autoestima fortalecida.