ADULTIZAÇÃO INFANTIL: A INOCÊNCIA ROUBADA

É na infância que se inicia o processo de desenvolvimento de uma pessoa, por isso é necessário que os adultos entendam a importância de a criança viver cada fase, sem pular etapas. Uma interação social, física e afetuosa, para ela é uma sensação nova, que não tem nome, motivo ou até mesmo conotação. Momentos sensoriais como esses são cruciais nessa etapa de formação e aprendizado. No entanto, algumas pessoas interpretam atividades infantis com base em suas próprias projeções, vendo, com malícia, comportamentos naturais de uma criança que é inocente, que não tem consciência desse olhar de um adulto. E com essa interpretação equivocada, acabam, sem perceber, incentivando atitudes e estímulos inadequados, ignorando os riscos e impactos que isso pode causar no desenvolvimento infantil.                                                Um novo termo sobre essa delicada questão começou a circular nas mídias sociais:  “Adultização Infantil”, um fenômeno que ocorre quando crianças e adolescentes são expostos a comportamentos típicos do mundo adulto, muitas vezes de forma precoce e inapropriada para sua faixa etária. Essa cruel prática ocorre quando crianças começam a adotar comportamentos, escolhas e responsabilidades típicas de adultos, muitas vezes, influenciadas pela mídia, pela Internet e pelo ambiente em que vivem. Na era digital, esse processo tem se intensificado, especialmente com a popularização das redes sociais, onde muitos menores de idade são expostos a conteúdos sexualizados ou buscam adotar papéis do universo adulto para se destacar em plataformas como Instagram, TikTok e YouTube. A sexualização precoce e a pressão para se comportar de tal forma são, principalmente, o que pode causar danos significativos ao desenvolvimento emocional e psicológico das crianças.

Essa influência faz com que elas tenham contato com conteúdos e padrões que não são adequados para a idade, como músicas, roupas ou atitudes ligadas à aparência e à sexualidade. Em alguns casos, tornou-se comum também rotinas cheias de compromissos e responsabilidades. A adultização infantil pode mudar o caminho natural do crescimento, antecipando preocupações que deveriam surgir só mais tarde e comprometendo a saúde emocional, psicológica e o desenvolvimento das crianças.

 

OS IMPACTOS DA ADULTIZAÇÃO INFANTIL

A Adultização Infantil tem implicações sérias para a saúde mental e o bem-estar das crianças. Quando expostas a grandes responsabilidades ou pressões para atingir padrões adultos, frequentemente desenvolvem ansiedade e estresse. A constante preocupação com desempenho e aparência pode gerar um estado de tensão permanente. Por consequência, ao imitar comportamentos de homens e mulheres  como o uso de maquiagem ou roupas adultas, as crianças podem sentir que precisam se encaixar em padrões que não condizem com a realidade que deveriam viver, o que impacta sua autoestima. A baixa autoestima para quem se sente forçada a comportar-se como se tivesse outra faixa etária, que é ilusória, pode levar a dificuldades em se relacionar com outras crianças, já que perde a oportunidade de interagir com outras pessoas de forma espontânea. A exposição precoce a questões complexas e a pressão para crescer rapidamente roubam das crianças momentos valiosos da infância. A brincadeira é fundamental para o desenvolvimento infantil e, se substituída por comportamentos que não fazem sentido para sua idade, pode fazer perder a chance de vivenciar uma infância saudável.

A ADULTIZAÇÃO INFANTIL E AS REDES SOCIAIS

A Erotização Infantil tornou-se uma das maiores e mais perigosas vertentes da adultização. Esse conceito é caracterizado quando uma criança, independente do gênero, passa a ter seu corpo como alvo de desejo para um terceiro, ou seja, para um adulto, sem que tivesse feito algo de forma consciente para provocar tais reações e,  por muitas vezes, essas crianças ou adolescentes são influenciados, implícita ou explicitamente, por pessoas de seu convívio ou pelas Redes Sociais e pela Internet.

É importante ainda ressaltar que estão diariamente expostos a uma enorme quantidade de conteúdos adultos disponíveis nas redes. Influenciadores e celebridades digitais frequentemente exibem comportamentos ou estilos de vida da realidade adulta. Isso pode levar os jovens a buscarem aceitação ao imitar esses comportamentos, muitas vezes de forma sexualizada ou inapropriada para a idade. Como isso acontece? De início, com o uso de roupas sensuais como uma forma de “valorizar” o corpo de quem as usa, mesmo podendo provocar olhares alheios, ou até mesmo, situações de assédio sexual, seja verbal ou físico. Uma explicação plausível para tal fato seria a pressão social e cultural que essa faixa etária sofre, direta ou indiretamente, com os estereótipos sobre beleza e aceitabilidade.

Muitas marcas consagradas no mercado direcionam suas campanhas publicitárias para o público infanto-juvenil, criando uma demanda artificial por um estilo de vida consumista e focado na aparência, fazendo com que as crianças se distanciem de interesses típicos da infância.                                                                                             Assim, a falta de supervisão do que essas crianças e adolescentes acessam na internet cria, na mente desses indivíduos, que ainda são imaturos, uma sensação de liberdade que os torna vulneráveis a qualquer estímulo. Além disso, a falta de instrução de uma educação sexual adequada, somada à negligência dos adultos, pode levar a cenários de abuso e exploração infantil. Vê-se, portanto, que toda pessoa deveria, desde a sua mais tenra idade, ser orientada sobre os limites de proteção ao seu corpo, para que tenha ao menos uma base para se proteger. Essa fase inicial da vida é quando a criança terá sua personalidade formada, ou seja, é o momento que  formará seus valores e deixar de educá-la a respeito desse assunto é uma forma de abandono, pois a deixará vulnerável a tudo que a cerca.

FELCA E O CASO DE HYTALO SANTOS

O influenciador paraibano, Hytalo Santos, criador de conteúdo, foi denunciado por outro influenciador, Felipe Bressanim Pereira, o Felca, natural de Londrina, no norte do Paraná. Inicialmente focado em vídeos de games e streaming, evoluiu sua carreira para se tornar uma voz crítica e humorística na Internet, o rapaz ganhou destaque ao criticar a base da WePink, de Virginia Fonseca, e ao denunciar as lives de NPC, doando todo o lucro de R$ 31 mil para instituições de caridade. Ele também chamou atenção ao recusar um contrato de R$ 50 milhões para divulgar o famoso “tigrinho”. Sua participação no debate sobre o vício em apostas na CPI das Bets e sua defesa da saúde mental o consolidaram como uma voz influente e ética no cenário digital. Em reconhecimento, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) o nomeou Parceiro Nacional da Saúde Mental, destacando sua contribuição para a conscientização sobre a erotização de crianças e adolescentes, título reconhecido pela OMS.

Mais recentemente, no dia 06 de agosto, o influenciador Felca chocou a Internet com um vídeo que revelou como o algoritmo do TikTok pode favorecer a divulgação de conteúdo sexualizado e referente à pedofilia. O vídeo abordou o caso de Hytalo Santos, que reunia menores em uma mansão para produzir vídeos com danças sensuais e encenações de namoro. Felca denunciou o paraibano em seu vídeo, acusando-o de explorar a imagem de menores de idade nas redes sociais.

Para provar sua teoria, o londrinense criou um perfil e curtiu fotos de crianças em contextos sugestivos. Rapidamente, o algoritmo começou a recomendar-lhe mais conteúdos do tipo. A grande repercussão de seu vídeo resultou na remoção do perfil de Hytalo e no início de investigações do Ministério Público. Após o vídeo de denúncia viralizar, de imediato, as contas de Hytalo e certos associados, como “Kamylinha”, outra influencer digital, foram desativadas. Logo em seguida, abriram-se investigações minuciosas da Polícia Civil e do Ministério Público da Paraíba (MPPB), que revelaram não só casos de exploração sexual infantil, mas também de uso indevido de imagens de menores com teor sexual e até tráfico humano. As investigações revelam que Israel Vicente, marido de Santos, estaria também envolvido diretamente no caso.

Foram encontradas muitas gravações de danças de menores de idade, muitas delas, com pouca roupa, fato que o fazia ganhar dinheiro ao divulgar os vídeos nas redes. Com o passar dos anos, o influenciador criou uma casa apelidada de “Mansão”, levou algumas crianças para morar lá com ele e com a permissão dos pais. O grupo recebeu o nome de “Filhos” que eram, na maioria,  jovens em vulnerabilidade social, a quem era oferecido suporte financeiro, moradia, alimentação e educação, em troca,  deveriam aparecer em seus conteúdos. Conhecido pela ostentação nas redes, gostava de incluir desde a distribuição de celulares de última geração até a doação de carros, casas e cirurgias plásticas para as “filhas” adolescentes.

Entretanto, graças aos esforços conjuntos das forças públicas e da polícia, Hytalo e seu marido foram presos no dia 15 de agosto, em uma casa em Carapicuíba, na grande São Paulo.                                                                                                                                  Tipificada no Código Penal, a pena para tráfico humano é de reclusão de 4 a 8 anos, aumentada de um terço até a metade se o crime for cometido contra crianças ou adolescentes, podendo chegar a 12 anos de prisão. Já, segundo o ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente, a pena para quem “produzir, reproduzir, dirigir, filmar ou registrar, por qualquer meio, cenas de atividade sexual explícita ou pornográfica, envolvendo uma criança ou um adolescente” terá a pena de reclusão de 4 a 8 anos.                                                                                                               

Até o presente momento, Hytalo e Israel passam por audiências e aguardam em prisão preventiva o julgamento definitivo, que ainda não tem previsão. As autoridades, por sua vez, estão reunindo provas que corroborem as acusações contra o casal.

COMO EVITAR A ADULTIZAÇÃO INFANTIL

É de extrema importância munir as vítimas e seus responsáveis de informações, a fim de que a adultização infantil possa ser combatida. Primeiramente, é necessário acompanhar de perto os cuidados da criança, ou seja, é essencial que pais e responsáveis estejam presentes a todo momento, orientando e ajudando a entender o mundo de forma apropriada para a idade.  É preciso também impor um limite ao tempo de uso das mídias digitais, criando-se  regras para o uso da TV, Internet e redes sociais ajuda, visando evitar o contato com conteúdos impróprios, além de separar brincadeiras de obrigações. Imitar adultos faz parte do brincar, mas esses comportamentos não devem se transformar em tarefas ou responsabilidades diárias, deve-se incentivar brincadeiras lúdicas que despertem a imaginação. Atividades como desenhar, criar histórias, montar brinquedos e brincar livremente são fundamentais para o desenvolvimento infantil. Além disso, é importante reforçar a identidade infantil, ajudando as crianças a compreenderem quem são, como se sentem e como podem se expressar de forma saudável, sem pressões para parecer ou agir como adultos. Por último, proteger a criança a todo custo em seu convívio, seja familiar ou escolar, ter ciência do que ela faz, com quem interage e onde está, é um princípio inegociável e que mantém a segurança, a saúde mental e o bem-estar físico deste grupo etário, além e proteger sua integridade moral e física.

PROTEGER NÃO É ISOLAR, É ZELAR

O cuidado correto protege, salva, e garante que as crianças do Brasil possam ter uma infância digna, o movimento que Felca e outros influenciadores começaram não pode e não deve parar, é preciso um zelo constante pelas crianças e pelos adolescentes, pois são eles, sem que pareça um clichê, o futuro da nossa Nação.

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